{"id":8357,"date":"2020-12-31T02:57:25","date_gmt":"2020-12-31T05:57:25","guid":{"rendered":"https:\/\/movimentocjc.org.br\/?p=8357"},"modified":"2020-12-31T03:03:03","modified_gmt":"2020-12-31T06:03:03","slug":"54o-dia-mundial-da-paz-a-cultura-do-cuidado-como-percurso-de-paz-papa-francisco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/movimentocjc.org.br\/blog\/54o-dia-mundial-da-paz-a-cultura-do-cuidado-como-percurso-de-paz-papa-francisco\/","title":{"rendered":"54\u00ba DIA MUNDIAL DA PAZ – A CULTURA DO CUIDADO COMO PERCURSO DE PAZ |Papa Francisco"},"content":{"rendered":"
1. Aproximando-se o Ano Novo, desejo apresentar as minhas respeitosas sauda\u00e7\u00f5es aos Chefes de Estado e de Governo, aos respons\u00e1veis das Organiza\u00e7\u00f5es Internacionais, aos l\u00edderes espirituais e fi\u00e9is das v\u00e1rias religi\u00f5es, aos homens e mulheres de boa vontade. Para todos formulo os melhores votos, esperando que o ano de 2021 fa\u00e7a a humanidade progredir no caminho da fraternidade, da justi\u00e7a e da paz entre as pessoas, as comunidades, os povos e os Estados.<\/p>\n\n\n\n
O ano de 2020 ficou marcado pela grande crise sanit\u00e1ria da Covid-19, que se transformou num fen\u00f3meno plurissectorial e global, agravando fortemente outras crises inter-relacionadas como a clim\u00e1tica, alimentar, econ\u00f3mica e migrat\u00f3ria, e provocando grandes sofrimentos e inc\u00f3modos. Penso, em primeiro lugar, naqueles que perderam um familiar ou uma pessoa querida, mas tamb\u00e9m em quem ficou sem trabalho. Lembro de modo especial os m\u00e9dicos, enfermeiras e enfermeiros, farmac\u00eauticos, investigadores, volunt\u00e1rios, capel\u00e3es e funcion\u00e1rios dos hospitais e centros de sa\u00fade, que se prodigalizaram \u2013 e continuam a faz\u00ea-lo \u2013 com grande fadiga e sacrif\u00edcio, a ponto de alguns deles morrerem quando procuravam estar perto dos doentes a fim de aliviar os seus sofrimentos ou salvar-lhes a vida. Ao mesmo tempo que presto homenagem a estas pessoas, renovo o apelo aos respons\u00e1veis pol\u00edticos e ao sector privado para que tomem as medidas adequadas a garantir o acesso \u00e0s vacinas contra a Covid-19 e \u00e0s tecnologias essenciais necess\u00e1rias para dar assist\u00eancia aos doentes e a todos aqueles que s\u00e3o mais pobres e mais fr\u00e1geis.[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n \u00c9 doloroso constatar que, ao lado de numerosos testemunhos de caridade e solidariedade, infelizmente ganham novo impulso v\u00e1rias formas de nacionalismo, racismo, xenofobia e tamb\u00e9m guerras e conflitos que semeiam morte e destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n Estes e outros acontecimentos, que marcaram o caminho da humanidade no ano de 2020, ensinam-nos a import\u00e2ncia de cuidarmos uns dos outros e da cria\u00e7\u00e3o a fim de se construir uma sociedade alicer\u00e7ada em rela\u00e7\u00f5es de fraternidade. Por isso, escolhi como tema desta mensagem \u00aba cultura do cuidado como percurso de paz<\/em>\u00bb; a cultura do cuidado* para erradicar a cultura da indiferen\u00e7a, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer.<\/p>\n\n\n\n 2. Deus Criador, origem da voca\u00e7\u00e3o humana ao cuidado<\/em><\/p>\n\n\n\n Em muitas tradi\u00e7\u00f5es religiosas, existem narrativas que se referem \u00e0 origem do homem, \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com o Criador, com a natureza e com os seus semelhantes. Na B\u00edblia, o livro do G\u00e9nesis<\/em> revela, desde o in\u00edcio, a import\u00e2ncia do cuidado<\/em> ou da cust\u00f3dia<\/em> no projeto de Deus para a humanidade, destacando a rela\u00e7\u00e3o entre o homem (\u2019adam<\/em>) e a terra (\u2019adamah<\/em>) e entre os irm\u00e3os. Na narra\u00e7\u00e3o b\u00edblica da cria\u00e7\u00e3o, Deus confia o jardim \u00abplantado no \u00c9den\u00bb (cf. Gn<\/em> 2, 8) \u00e0s m\u00e3os de Ad\u00e3o com o encargo de \u00abo cultivar e guardar\u00bb (Gn<\/em> 2, 15). Isto significa, por um lado, tornar a terra produtiva e, por outro, proteg\u00ea-la e faz\u00ea-la manter a sua capacidade de sustentar a vida.[2]<\/a> Os verbos \u00abcultivar\u00bb e \u00abguardar\u00bb descrevem a rela\u00e7\u00e3o de Ad\u00e3o com a sua casa-jardim e indicam tamb\u00e9m a confian\u00e7a que Deus deposita nele fazendo-o senhor e guardi\u00e3o de toda a cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n O nascimento de Caim e Abel gera uma hist\u00f3ria de irm\u00e3os, cuja rela\u00e7\u00e3o em termos de tutela<\/em> ou cust\u00f3dia<\/em> ser\u00e1 vivida negativamente por Caim. Depois de ter assassinado o seu irm\u00e3o Abel, a Deus que lhe pergunta por ele, Caim responde: \u00abSou, porventura, guarda<\/em> do meu irm\u00e3o?\u00bb (Gn<\/em> 4, 9).[3]<\/a> Com certeza! Caim \u00e9 o \u00abguarda\u00bb de seu irm\u00e3o. \u00abNestas narra\u00e7\u00f5es t\u00e3o antigas, ricas de profundo simbolismo, j\u00e1 estava contida a convic\u00e7\u00e3o atual de que tudo est\u00e1 inter-relacionado e o cuidado aut\u00eantico da nossa pr\u00f3pria vida e das nossas rela\u00e7\u00f5es com a natureza \u00e9 insepar\u00e1vel da fraternidade, da justi\u00e7a e da fidelidade aos outros\u00bb.[4]<\/a><\/p>\n\n\n\n 3. Deus Criador, modelo do cuidado<\/em><\/p>\n\n\n\n A Sagrada Escritura apresenta Deus, al\u00e9m de Criador, como Aquele que cuida das suas criaturas, em particular de Ad\u00e3o, Eva e seus filhos. O pr\u00f3prio Caim, embora caia sobre ele a maldi\u00e7\u00e3o por causa do crime que cometera, recebe como dom do Criador um sinal de prote\u00e7\u00e3o<\/em>, para que a sua vida seja salvaguardada (cf. Gn<\/em>4, 15). Este facto, ao mesmo tempo que confirma a dignidade inviol\u00e1vel<\/em> da pessoa, criada \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, manifesta tamb\u00e9m o plano divino para preservar a harmonia da cria\u00e7\u00e3o, porque \u00aba paz e a viol\u00eancia n\u00e3o podem habitar na mesma morada\u00bb.[5]<\/a><\/p>\n\n\n\n \u00c9 precisamente o cuidado da cria\u00e7\u00e3o que est\u00e1 na base da institui\u00e7\u00e3o do Shabbat<\/em> que, al\u00e9m de regular o culto divino, visava restabelecer a ordem social e a solicitude pelos pobres (Gn<\/em> 2, 1-3; Lv<\/em> 25, 4). A celebra\u00e7\u00e3o do Jubileu, quando se completava o s\u00e9timo ano sab\u00e1tico, consentia uma tr\u00e9gua \u00e0 terra, aos escravos e aos endividados. Neste ano de gra\u00e7a, cuidava-se dos mais vulner\u00e1veis, oferecendo-lhes uma nova perspetiva de vida, para que n\u00e3o houvesse qualquer necessitado entre o povo (cf. Dt<\/em> 15, 4).<\/p>\n\n\n\n Digna de nota \u00e9 tamb\u00e9m a tradi\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica, onde o auge da compreens\u00e3o b\u00edblica da justi\u00e7a se manifesta na forma como uma comunidade trata os mais fr\u00e1geis no seu seio. \u00c9 por isso que particularmente Am\u00f3s (2, 6-8; 8) e Isa\u00edas (58) erguem continuamente a voz em prol de justi\u00e7a para os pobres, que, pela sua vulnerabilidade e falta de poder, s\u00e3o ouvidos s\u00f3 por Deus, que cuida deles (cf. Sal<\/em> 34, 7; 113, 7-8).<\/p>\n\n\n\n 4. O cuidado no minist\u00e9rio de Jesus<\/em><\/p>\n\n\n\n A vida e o minist\u00e9rio de Jesus encarnam o \u00e1pice da revela\u00e7\u00e3o do amor do Pai pela humanidade (Jo<\/em> 3,16). Na sinagoga de Nazar\u00e9, Jesus manifestou-Se como Aquele que o Senhor consagrou e enviou a \u00abanunciar a Boa-Nova aos pobres\u00bb, \u00aba proclamar a liberta\u00e7\u00e3o aos cativos e, aos cegos, a recupera\u00e7\u00e3o da vista; a mandar em liberdade os oprimidos\u00bb (Lc<\/em> 4, 18). Estas a\u00e7\u00f5es messi\u00e2nicas, t\u00edpicas dos jubileus, constituem o testemunho mais eloquente da miss\u00e3o que o Pai Lhe confiou. Na sua compaix\u00e3o, Cristo aproxima-Se dos doentes no corpo e no esp\u00edrito e cura-os; perdoa os pecadores e d\u00e1-lhes uma nova vida. Jesus \u00e9 o Bom Pastor que cuida das ovelhas (cf. Jo<\/em> 10, 11-18; Ez<\/em> 34, 1-31); \u00e9 o Bom Samaritano que Se inclina sobre o ferido, trata das suas feridas e cuida dele (cf. Lc<\/em> 10, 30-37).<\/p>\n\n\n\n No ponto culminante da sua miss\u00e3o, Jesus sela o seu cuidado por n\u00f3s, oferecendo-Se na cruz e libertando-nos assim da escravid\u00e3o do pecado e da morte. Deste modo, com o dom da sua vida e o seu sacrif\u00edcio, abriu-nos o caminho do amor e disse a cada um: \u00abSegue-Me! Faz tu tamb\u00e9m o mesmo\u00bb (cf. Lc<\/em> 10, 37).<\/p>\n\n\n\n 5. A cultura do cuidado, na vida dos seguidores de Jesus<\/em><\/p>\n\n\n\n As obras de miseric\u00f3rdia espiritual e corporal constituem o n\u00facleo do servi\u00e7o de caridade da Igreja primitiva. Os crist\u00e3os da primeira gera\u00e7\u00e3o praticavam a partilha para n\u00e3o haver entre eles algu\u00e9m necessitado (cf. At<\/em> 4, 34-35) e esfor\u00e7avam-se por tornar a comunidade uma casa acolhedora, aberta a todas as situa\u00e7\u00f5es humanas, disposta a ocupar-se dos mais fr\u00e1geis. Assim, tornou-se habitual fazer ofertas volunt\u00e1rias para alimentar os pobres, enterrar os mortos e nutrir os \u00f3rf\u00e3os, os idosos e as v\u00edtimas de desastres, como os n\u00e1ufragos. E em per\u00edodos sucessivos, quando a generosidade dos crist\u00e3os perdeu um pouco do seu \u00edmpeto, alguns Padres da Igreja insistiram que a propriedade \u00e9 pensada por Deus para o bem comum. Santo Ambr\u00f3sio afirmava que \u00aba natureza concedeu todas as coisas aos homens para uso comum. (\u2026) Portanto, a natureza produziu um direito comum para todos, mas a gan\u00e2ncia tornou-o um direito de poucos\u00bb.[6]<\/a> Superadas as persegui\u00e7\u00f5es dos primeiros s\u00e9culos, a Igreja aproveitou a liberdade para inspirar a sociedade e a sua cultura. \u00abAs necessidades da \u00e9poca exigiam novas energias ao servi\u00e7o da caridade crist\u00e3. As cr\u00f3nicas hist\u00f3ricas relatam in\u00fameros exemplos de obras de miseric\u00f3rdia. De tais esfor\u00e7os conjuntos, resultaram numerosas institui\u00e7\u00f5es para al\u00edvio das v\u00e1rias necessidades humanas: hospitais, albergues para os pobres, orfanatos, lares para crian\u00e7as, abrigos para forasteiros, e assim por diante\u00bb.[7]<\/a><\/p>\n\n\n\n 6. Os princ\u00edpios da doutrina social da Igreja como base da cultura do cuidado<\/em><\/p>\n\n\n\n A diakonia<\/em> das origens, enriquecida pela reflex\u00e3o dos Padres e animada, ao longo dos s\u00e9culos, pela caridade operosa de tantas luminosas testemunhas da f\u00e9, tornou-se o cora\u00e7\u00e3o pulsante da doutrina social da Igreja, proporcionando a todas as pessoas de boa vontade um precioso patrim\u00f3nio de princ\u00edpios, crit\u00e9rios e indica\u00e7\u00f5es, donde se pode haurir a \u00abgram\u00e1tica\u00bb do cuidado: a promo\u00e7\u00e3o da dignidade de toda a pessoa humana, a solidariedade com os pobres e indefesos, a solicitude pelo bem comum e a salvaguarda da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n * O cuidado como promo\u00e7\u00e3o da dignidade e dos direitos da pessoa<\/p>\n\n\n\n \u00abO conceito de pessoa, que surgiu e amadureceu no cristianismo, ajuda a promover um desenvolvimento plenamente humano. Porque a pessoa exige sempre a rela\u00e7\u00e3o e n\u00e3o o individualismo, afirma a inclus\u00e3o e n\u00e3o a exclus\u00e3o, a dignidade singular, inviol\u00e1vel e n\u00e3o a explora\u00e7\u00e3o\u00bb.[8]<\/a> Toda a pessoa humana \u00e9 fim em si mesma, e nunca um mero instrumento a ser avaliado apenas pela sua utilidade: foi criada para viver em conjunto na fam\u00edlia, na comunidade, na sociedade, onde todos os membros s\u00e3o iguais em dignidade. E desta dignidade derivam os direitos humanos, bem como os deveres, que recordam, por exemplo, a responsabilidade de acolher e socorrer os pobres, os doentes, os marginalizados, o nosso \u00abpr\u00f3ximo, vizinho ou distante no espa\u00e7o e no tempo\u00bb.[9]<\/a><\/p>\n\n\n\n * O cuidado do bem comum<\/p>\n\n\n\n Cada aspeto da vida social, pol\u00edtica e econ\u00f3mica encontra a sua realiza\u00e7\u00e3o, quando se coloca ao servi\u00e7o do bem comum, isto \u00e9 do \u00abconjunto das condi\u00e7\u00f5es da vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcan\u00e7ar mais plena e facilmente a pr\u00f3pria perfei\u00e7\u00e3o\u00bb.[10]<\/a> Por conseguinte os nossos projetos e esfor\u00e7os devem ter sempre em conta os efeitos sobre a fam\u00edlia humana inteira, ponderando as suas consequ\u00eancias para o momento presente e para as gera\u00e7\u00f5es futuras. Qu\u00e3o verdadeiro e atual seja tudo isto, no-lo mostra a pandemia Covid-19, perante a qual \u00abnos demos conta de estar no mesmo barco, todos fr\u00e1geis e desorientados mas ao mesmo tempo importantes e necess\u00e1rios, todos chamados a remar juntos\u00bb,[11]<\/a> porque \u00abningu\u00e9m se salva sozinho\u00bb[12]<\/a> e nenhum Estado nacional isolado pode assegurar o bem comum da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o.[13]<\/a><\/p>\n\n\n\n * O cuidado atrav\u00e9s da solidariedade<\/p>\n\n\n\n A solidariedade exprime o amor pelo outro de maneira concreta, n\u00e3o como um sentimento vago, mas como \u00aba determina\u00e7\u00e3o firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum, ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque todos n\u00f3s somos verdadeiramente respons\u00e1veis por todos\u00bb.[14]<\/a> A solidariedade ajuda-nos a ver o outro \u2013 quer como pessoa quer, em sentido lato, como povo ou na\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o como um dado estat\u00edstico, nem como meio a usar e depois descartar quando j\u00e1 n\u00e3o for \u00fatil, mas como nosso pr\u00f3ximo, companheiro de viagem, chamado a participar, como n\u00f3s, no banquete da vida, para o qual todos somos igualmente convidados por Deus. <\/p>\n\n\n\n * O cuidado e a salvaguarda da cria\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n A enc\u00edclica Laudato si\u2019<\/em> reconhece plenamente a interconex\u00e3o de toda a realidade criada, destacando a exig\u00eancia de ouvir ao mesmo tempo o grito dos necessitados e o da cria\u00e7\u00e3o. Desta escuta atenta e constante pode nascer um cuidado eficaz da terra, nossa casa comum, e dos pobres. A prop\u00f3sito, desejo reiterar que \u00abn\u00e3o pode ser aut\u00eantico um sentimento de uni\u00e3o \u00edntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo n\u00e3o houver no cora\u00e7\u00e3o ternura, compaix\u00e3o e preocupa\u00e7\u00e3o pelos seres humanos\u00bb.[15]<\/a> Na verdade \u00abpaz, justi\u00e7a e salvaguarda da cria\u00e7\u00e3o s\u00e3o tr\u00eas quest\u00f5es completamente ligadas, que n\u00e3o se poder\u00e3o separar para ser tratadas individualmente, sob pena de cair novamente no reducionismo\u00bb.[16]<\/a><\/p>\n\n\n\n 7. A b\u00fassola para um rumo comum<\/em><\/p>\n\n\n\n Assim, num tempo dominado pela cultura do descarte e perante o agravamento das desigualdades dentro das na\u00e7\u00f5es e entre elas,[17]<\/a> gostaria de convidar os respons\u00e1veis das Organiza\u00e7\u00f5es internacionais e dos Governos, dos mundos econ\u00f3mico e cient\u00edfico, da comunica\u00e7\u00e3o social e das institui\u00e7\u00f5es educativas a pegarem nesta \u00abb\u00fassola<\/em>\u00bb dos princ\u00edpios acima lembrados para dar um rumo comum<\/em> ao processo de globaliza\u00e7\u00e3o, \u00abum rumo verdadeiramente humano\u00bb.[18]<\/a> Na verdade, este permitiria estimar o valor e a dignidade de cada pessoa, agir conjunta e solidariamente em prol do bem comum, aliviando quantos padecem por causa da pobreza, da doen\u00e7a, da escravid\u00e3o, da discrimina\u00e7\u00e3o e dos conflitos. Atrav\u00e9s desta b\u00fassola, encorajo todos a tornarem-se profetas e testemunhas da cultura do cuidado, a fim de preencher tantas desigualdades sociais. E isto s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel com um forte e generalizado protagonismo das mulheres na fam\u00edlia e em todas as esferas sociais, pol\u00edticas e institucionais.<\/p>\n\n\n\n A b\u00fassola<\/em> dos princ\u00edpios sociais, necess\u00e1ria para promover a cultura do cuidado<\/em>, vale tamb\u00e9m para as rela\u00e7\u00f5es entre as na\u00e7\u00f5es, que deveriam ser inspiradas pela fraternidade, o respeito m\u00fatuo, a solidariedade e a observ\u00e2ncia do direito internacional. A este respeito, h\u00e3o de ser reafirmadas a prote\u00e7\u00e3o e a promo\u00e7\u00e3o dos direitos humanos fundamentais, que s\u00e3o inalien\u00e1veis, universais e indivis\u00edveis.[19]<\/a><\/p>\n\n\n\n Deve ser recordado tamb\u00e9m o respeito pelo direito humanit\u00e1rio, sobretudo nesta fase em que se sucedem, sem interrup\u00e7\u00e3o, conflitos e guerras. Infelizmente, muitas regi\u00f5es e comunidades j\u00e1 n\u00e3o se recordam dos tempos em que viviam em paz e seguran\u00e7a. Numerosas cidades tornaram-se um epicentro da inseguran\u00e7a: os seus habitantes fatigam a manter os seus ritmos normais, porque s\u00e3o atacados e bombardeados indiscriminadamente por explosivos, artilharia e armas ligeiras. As crian\u00e7as n\u00e3o podem estudar. Homens e mulheres n\u00e3o podem trabalhar para sustentar as fam\u00edlias. A carestia lan\u00e7a ra\u00edzes em lugares onde antes era desconhecida. As pessoas s\u00e3o obrigadas a fugir, deixando para tr\u00e1s n\u00e3o s\u00f3 as suas casas, mas tamb\u00e9m a sua hist\u00f3ria familiar e as ra\u00edzes culturais.<\/p>\n\n\n\n As causas de conflitos s\u00e3o muitas, mas o resultado \u00e9 sempre o mesmo: destrui\u00e7\u00e3o e crise humanit\u00e1ria. Temos de parar e interrogar-nos: O que foi que levou a sentir o conflito como algo normal no mundo? E, sobretudo, como converter o nosso cora\u00e7\u00e3o e mudar a nossa mentalidade para procurar verdadeiramente a paz na solidariedade e na fraternidade?<\/p>\n\n\n\n Quanta dispers\u00e3o de recursos para armas, em particular para as armas nucleares,[20]<\/a> recursos que poderiam ser utilizados para prioridades mais significativas a fim de garantir a seguran\u00e7a das pessoas, como a promo\u00e7\u00e3o da paz e do desenvolvimento humano integral, o combate \u00e0 pobreza, o rem\u00e9dio das car\u00eancias sanit\u00e1rias! Ali\u00e1s, tamb\u00e9m isto \u00e9 evidenciado por problemas globais, como a atual pandemia Covid-19 e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Como seria corajosa a decis\u00e3o de criar \u00abum \u201cFundo mundial\u201d com o dinheiro que se gasta em armas e outras despesas militares, para poder eliminar a fome e contribuir para o desenvolvimento dos pa\u00edses mais pobres\u00bb![21]<\/a><\/p>\n\n\n\n 8. Para educar em ordem \u00e0 cultura do cuidado<\/em><\/p>\n\n\n\n A promo\u00e7\u00e3o da cultura do cuidado requer um processo educativo<\/em>, e a b\u00fassola dos princ\u00edpios sociais constitui, para o efeito, um instrumento fi\u00e1vel para v\u00e1rios contextos relacionados entre si. A prop\u00f3sito, gostaria de fornecer alguns exemplos:<\/p>\n\n\n\n A educa\u00e7\u00e3o para o cuidado nasce na fam\u00edlia<\/em>, n\u00facleo natural e fundamental da sociedade, onde se aprende a viver em rela\u00e7\u00e3o e no respeito m\u00fatuo. Mas a fam\u00edlia precisa de ser colocada em condi\u00e7\u00f5es de poder cumprir esta tarefa vital e indispens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n Sempre em colabora\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia, temos outros sujeitos encarregados da educa\u00e7\u00e3o como a escola e a universidade<\/em> e analogamente, em certos aspetos, os sujeitos da comunica\u00e7\u00e3o social<\/em>.[22]<\/a> S\u00e3o chamados a transmitir um sistema de valores fundado no reconhecimento da dignidade de cada pessoa, de cada comunidade lingu\u00edstica, \u00e9tnica e religiosa, de cada povo e dos direitos fundamentais que dela derivam. A educa\u00e7\u00e3o constitui um dos pilares de sociedades mais justas e solid\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n As religi\u00f5es em geral, e os l\u00edderes religiosos em particular, podem desempenhar um papel insubstitu\u00edvel na transmiss\u00e3o aos fi\u00e9is e \u00e0 sociedade dos valores da solidariedade, do respeito pelas diferen\u00e7as, do acolhimento e do cuidado dos irm\u00e3os mais fr\u00e1geis. Recordo, a prop\u00f3sito, as palavras que o Papa Paulo VI proferiu no Parlamento do Uganda em 1969: \u00abN\u00e3o temais a Igreja; esta honra-vos, educa-vos cidad\u00e3os honestos e leais, n\u00e3o fomenta rivalidades nem divis\u00f5es, procura promover a liberdade sadia, a justi\u00e7a social, a paz; se tem alguma prefer\u00eancia \u00e9 pelos pobres, a educa\u00e7\u00e3o dos pequeninos e do povo, o cuidado dos atribulados e desvalidos\u00bb.[23]<\/a><\/p>\n\n\n\n A todas as pessoas empenhadas no servi\u00e7o das popula\u00e7\u00f5es, nas organiza\u00e7\u00f5es internacionais, governamentais e n\u00e3o governamentais, com uma miss\u00e3o educativa, e a quantos trabalham, pelos mais variados t\u00edtulos, no campo da educa\u00e7\u00e3o e da pesquisa, renovo o meu encorajamento para que se possa chegar \u00e0 meta duma educa\u00e7\u00e3o \u00abmais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, di\u00e1logo construtivo e m\u00fatua compreens\u00e3o\u00bb.[24]<\/a> Espero que este convite, dirigido no contexto do Pacto Educativo Global<\/em>, encontre ampla e variegada ades\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n 9. N\u00e3o h\u00e1 paz sem a cultura do cuidado<\/em><\/p>\n\n\n\n A cultura do cuidado<\/em>, enquanto compromisso comum, solid\u00e1rio e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos, enquanto disposi\u00e7\u00e3o a interessar-se, a prestar aten\u00e7\u00e3o, disposi\u00e7\u00e3o \u00e0 compaix\u00e3o, \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o e \u00e0 cura, ao respeito m\u00fatuo e ao acolhimento rec\u00edproco, constitui uma via privilegiada para a constru\u00e7\u00e3o da paz. \u00abEm muitas partes do mundo, fazem falta percursos de paz que levem a cicatrizar as feridas, h\u00e1 necessidade de artes\u00e3os de paz prontos a gerar, com criatividade e ousadia, processos de cura e de um novo encontro\u00bb.[25]<\/a><\/p>\n\n\n\n Neste tempo, em que a barca da humanidade, sacudida pela tempestade da crise, avan\u00e7a com dificuldade \u00e0 procura dum horizonte mais calmo e sereno, o leme da dignidade da pessoa humana e a \u00abb\u00fassola\u00bb dos princ\u00edpios sociais fundamentais podem consentir-nos de navegar com um rumo seguro e comum. Como crist\u00e3os, mantemos o olhar fixo na Virgem Maria, Estrela do Mar e M\u00e3e da Esperan\u00e7a. Colaboremos, todos juntos, a fim de avan\u00e7ar para um novo horizonte de amor e paz, de fraternidade e solidariedade, de apoio m\u00fatuo e acolhimento rec\u00edproco. N\u00e3o cedamos \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de nos desinteressarmos dos outros, especialmente dos mais fr\u00e1geis, n\u00e3o nos habituemos a desviar o olhar,[26]<\/a> mas empenhemo-nos cada dia concretamente por \u00abformar uma comunidade feita de irm\u00e3os que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros\u00bb.[27]<\/a><\/p>\n\n\n\n Vaticano, 8 de dezembro de 2020<\/em>.<\/p>\n\n\n\n Equipe de Reda\u00e7\u00e3o | Movimento CJC<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":" 1. Aproximando-se o Ano Novo, desejo apresentar as minhas respeitosas sauda\u00e7\u00f5es aos Chefes de Estado e de Governo, aos respons\u00e1veis das Organiza\u00e7\u00f5es Internacionais, aos l\u00edderes espirituais e fi\u00e9is das v\u00e1rias religi\u00f5es, aos homens e mulheres de boa vontade. ( leia mais )<\/p>","protected":false},"author":14,"featured_media":8359,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1,94,91,110,87],"tags":[143,126,115,338,118],"class_list":["post-8357","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","category-espiritualidade","category-igreja","category-mundo","category-papa-francisco","tag-cjc","tag-dia-mundial-da-paz","tag-papa-francisco","tag-paz","tag-vaticano"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/movimentocjc.org.br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8357","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/movimentocjc.org.br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/movimentocjc.org.br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/movimentocjc.org.br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/movimentocjc.org.br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8357"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/movimentocjc.org.br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8357\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/movimentocjc.org.br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8359"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/movimentocjc.org.br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8357"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/movimentocjc.org.br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8357"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/movimentocjc.org.br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8357"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}